Palestra e exposição no MON – Cartazes de Piotr Kunce

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Affiche, afísa, cartaz, cartel, egilearen, plakat, poster transportam significativa carga de expressão cultural. A necessidade, o desejo e a inconsequência têm levado o homem a ocupar paredes de seu entorno com mensagens. De um lado, Altamira, Lascaux, Tibagi; de outro, Paris, New York, Curitiba. O primeiro conjunto traz a pintura rupestre cheia de beleza e enigma, enquanto que o segundo remete à pichação repleta de feiúra e indiferença. Entre extremos distantes está o cartaz, pedaço de papel colado às paredes com o objetivo de transmitir informação visual. A obra de Piotr Kunce, mestre do cartaz polaco é parte indispensável de sua história. Independente de data, latitude e longitude do lugar, de circunstâncias econômicas e filosóficas ou de situações políticas e sociais, a humanidade tem usado o cartaz como fiel veículo de comunicação.

O longo período entre o Paleolítico e a litografia proporcionou o advento do cartaz. O ato de gravar imagens nas paredes da caverna adquiriu alma com a evolução da escrita e a descoberta do papel. A figura associou-se à palavra, cresceu com a evolução da tipografia, experimentou diversos tipos de suporte e encontrou na superfície do papel o lugar ideal para se consolidar e expandir.
Esta combinação de imagem e palavra jamais deixou de lado seu real objetivo, que é a transmissão da mensagem. Para John Barnicoat, por exemplo, “o designer não pode permitir-se ao luxo de expressar a ideia pessoal que as gerações futuras não sejam capazes de entender”.
Não obstante, o bom cartaz extrapola os limites da somatória entre imagens verbais e não verbais. Muito mais além do simples fato de dimensionar e posicionar
a figura junto a uma simples palavra ou pelo menos uma linha de texto, o cartaz é o prolongamento da mente humana, conjugando emoção e razão a fim de cumprir com a finalidade da comunicação.
“Uma simples coleção de sonhos sem as associações de quem sonha e sem o conhecimento das circunstâncias em que ocorreram não me diz nada e me resulta difícil imaginar que possa dizer algo a alguém”, disse Freud ao crítico André Breton. Isto significa que além do sonho é necessária a contextualização, verdadeira ponte entre a realidade e a imaginação, entre Arte e Design, entre conhecimento e experiência vivenciada. O bom cartaz é resultado de elevada dose de criatividade e de comunicação objetiva.

Contudo, o cartaz tem data de nascimento (1870), bem como DNA de origem: a litografia. Da Áustria para a França e de Alois Senefelder para Jules Chéret foi apenas um passo. Artistas como Henri Toulouse-Lautrec ou Thomas Theodor Heine seguiram na caminhada, seja com ‘Divan Japonais’, por Lautrec ou com ‘Simplicissimus’, por Theodor Heine. Assim, o cartaz desempenhou o bom serviço, tanto na Art Noveau como nos homônimos Jugendstil, Liberty Stile ou Secession. O novo traço cultural chegou até a Escócia pelas mãos e a mente de Charles Renie Mackintosh na Glasgow School of Arts. Passou também por Gustav Klint e Peter Behrens no Deutscher Werkbund. Essas idéias viajaram até a Rússia, onde Alexander Rodchenko e El Lissitzky representam com sabedoria o construtivismo soviético. No começo da segunda metade do século, os cartazes aportaram no movimento hippie em busca de liberdade. Afinal, o cartaz também serve para divulgar a guerra, fazer adeptos e atacar ou defender regimes democráticos e totalitários. Em compensação, serve também ao relaxamento das pessoas, à diversão, ao humor e à irreverência.
Mas foi na Polônia que o cartaz encontrou terra fértil para prosperar. Artistas, escritores e poetas de Cracovia que viajaram pela Europa estimularam notáveis pintores, os quais ao serem influenciados pela arte popular deram início a um produto famoso conhecido como ‘cartaz polaco’. Primeiramente, absorveram o
modo de divulgar temas como o balé, a música e o teatro; depois, a propaganda e o turismo. Em 1899, Jan Wdowiszewski, diretor do Museu Técnico Industrial organizou a Primeira Exposição Internacional do Cartaz. Entre a 1a e 2a Guerra Mundial destacam-se Stefan Norblin e Tadeusz Gronowski; no pós-guerra, Tadeusz Trepkowski e Wlodzimierz Zabrzewski. Durante os anos de ouro do cartaz polaco (50-60), Henryk Tomaszewski. No rumo à metafísica e ao surrealismo dos anos 70 têm-se Franciszek Starowieyski e Jan Lenica. Dos anos 80 e o Solidarnosc, o destaque é para Stasys Eidrigevicius, Pagowski Andrzej e Wiktor Sadowski. Nas duas últimas décadas Piotr Kunce (Kraków, 1947) é, sem dúvida, uma das principais estrelas do cartaz polaco. Formado pela Faculdade
de Design Gráfico, Academia de Belas Artes de Cracóvia, onde é professor, dá sequência à história, criando cartazes para música, teatro e festivais. No portfolio há uma centena de excelentes cartazes. Caso fosse solicitado destacar dois deles, o primeiro é o do festival de cinema XV Etiuda & Anima (2009): um casal projeta luz pelos olhos. No cartaz do 3º Festival de Cultura (1992), Piotr ressalta em relevo a Estrela de Davi na superfície de um pão trançado. Genial!

Ivens Fontoura é designer e professor universitário. Preside a ABCD – Associação Brasileira de Críticos de Design.

 

 

 

Nascido na França, após a invenção da litografia colorida, o cartaz na Polônia adquiriu sua expressão completa e se transformou em forma autônoma de arte.

Os primeiros cartazes surgiram em 1890 das mãos de mestres ligados a Academia de Belas Artes em Cracóvia e de membros da Sociedade dos Artistas Poloneses “Sztuka”, dos incríveis pintores Jozef Mehoffer, Stanislaw Wyspianski, Karol Frycz, Kazimierz Sichulski e Wojciech Weiss. Era natural que no começo, tanto o seu tema principal eram manifestações de arte, como a forma, seguia as correntes artísticas da época. A ênfase na qualidade artística do projeto era, segundo os críticos, o que diferenciava os cartazes poloneses dos outros, produzidos na Europa. Esta tendência esteve presente durante toda a história do cartaz polonês.

A primeira exposição de cartazes foi organizada em 1898 em Cracóvia, período este, quando a Polônia não existia oficialmente nos mapas da Europa. Jan Wdowiszewski, então diretor do Museu Técnico -Industrial e organizador da Exposição, reconheceu a força desta forma de comunicação visual e a sua induvidosa função de espelho da sociedade em seu momento. Como forma de arte utilitária, o cartaz também passou a servir na luta pelos fins nacionais.

Após recuperar a independência política em 1918, o país começou o rápido processo de desenvolvimento que resultou em crescimento em todos setores. O cartaz da época ilustra fielmente este processo. Bom exemplo são os cartazes de Stefan Norblin que promoviam o turismo criando um efeito bem expressivo com forma simples. Também os cartazes publicitários que passam a utilizar uma linguagem muito mais simples que antes. Neste período, surge como outro importante centro para o cartaz polonês, a Escola de Belas Artes em Varsóvia, onde surgiu Tadeusz Gronowski, chamado o pai do cartaz polonês por ser o primeiro a se especializar nesta forma de arte. Gronowski foi o primeiro artista a criar o cartaz consciente da sua função e forma. Não o via como oportunidade para adaptação da sua técnica mas sim, de criação da técnica particular, com todas as possibilidades que oferecia a junção do artístico e o funcional. Tadeusz Gronowski fundou o seu próprio estúdio, chamado Plakat (cartaz – em polonês), recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, entre outros o Grand Prix na Exposição Internacional de Arte em Paris em 1925 e medalha de ouro pelo projeto do Pavilhão Polonês na Exposição Mundial em Nova York em 1939.

Após da Segunda Guerra Mundial, com a nova situação política, as autoridades comunistas da Polônia encontraram no cartaz, uma forma extremamente útil para transmitir novas ideias ao público, muitas vezes desfavorável as mudanças. A realidade difícil da época não era o que o novo governo queria projetar como “a nova e dinâmica Polônia Popular”. Todos os tipos de meios de comunicação serviam à propaganda institucional, o cartaz, segundo especialistas, era um dos mais eficientes. Ainda antes do fim da Guerra, em 1944, em Lublin, estabeleceu-se o Studio de Cartaz de Propaganda. Transferido após um ano para Lodz e liderada por Wlodzimierz Zakrzewski, a entidade concentrava os melhores gráficos da época. Dada a realidade política, é compreensível que os cartazes de propaganda eram muito influenciados pelo estilo gráfico da União Soviética, com seus slogans populistas, efeito e cores fortes. Uma das características curiosas da presença desse estilo que ficou denominada como o realismo social era a perspectiva de uma rã, quer dizer, uma figura humana com dimensões monstruosas na frente e o segundo plano pequeno, sem guarda de proporções.

 

Os anos 50 e 60 são considerados a época de ouro do cartaz polonês. Neste período criou-se o nome da Escola Polonesa de Cartaz e sem duvida, apesar da realidade difícil, nasceram obras clássicas importantes para o desenho gráfico até hoje. A função propagandista imposta e a onipresente censura do Estado não influenciavam na parte visual do cartaz permitindo assim, que a expressão artística florescesse.
Parece um paradoxo, mas o fato da arte ser financiada e divulgada inteiramente pelo Estado, proporcionava certa liberdade para a expressão artística. Os autores não eram obrigados a satisfazer ao gosto do empresário, produtor de filmes ou teatro, nem do público em geral. Os desenhistas de cartazes tornaram-se verdadeiros artistas e o cartaz começou a viver sua própria vida de peça de arte pura. Os cartazes emanavam poesia, forma refinada e criatividade sem limites.

Os nomes mais importantes da época são: Henryk Tomaszewski, Jan Lenica, Jan Mlodozeniec, Waldemar Swierzy, Franciszek Starowieyski, Wiktor Gorka, Eryk Lipinski, Tadeusz Trepkowski, dentre muitos outros. A arte do cartaz foi diminuindo na década de 80, período marcado pela luta da sociedade contra o sistema totalitário, concluído em 1989 com a queda do comunismo na Polônia. O cartaz com sua forma dos anos 60 não podia conservar sua função na economia de mercado e também, o crescente domínio da televisão com sua influência na mentalidade da sociedade, fechou as portas do domínio do cartaz no espaço público.

Hoje, o cartaz que consideramos arte, esse verdadeiro que não é matriz reproduzida da imagem de ator, é limitado as galerias ou exposições. Mas eu acho prematuro anunciar a morte do cartaz na Polônia. A tradição da Escola Polonesa do Cartaz imunizou um pouco esse tipo de expressão gráfica como forma e base de novas pesquisas. Por outro lado, a forte tendência de procurar as próprias, novas ideias que fogem da banalidade, o salva em conteúdo. Podemos até dizer que a arte do cartaz como comunicação visual está em faze de crescimento, contudo, a sua forma, as vezes se encontra transformada em publicidade, folder ou logomarca, ajustados às necessidades do momento.

O cartaz segue vivo e mais livre com as suas diversas formas e falta do estilo dominante. Com tantos temas, tantas técnicas e tantos meios de expressão, hoje o limite do cartaz é o limite de imaginação do artista.

Dorota Joanna Barys – Cônsul Geral da Polônia em Curitiba

Esta matéria foi extraída do folder colecionável da exposição, veja ele na íntegra aqui.

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