Jorge Zalszupin por Etel Carmona

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TEMPO A FAVOR

Descobri Jorge Zalszupin quase ao acaso.

Quase, já que acasos não existem.

Eu, Etel, brasileira, designer, curiosa.

E Jorge, polonês, gênio, autodidata,
intuitivo, coletivo.

Encontro improvável marcado pelo destino.

Que iniciou uma nova história. Só nossa? Ou
a de todos nós?

Um dia, deparei-me com uma cópia do
trabalho de Jorge.

Na época, Ethel Leon, amiga e jornalista, escrevia
seu livro sobre o mobiliário brasileiro.

Ela me pediu uma opinião. E puxou uma única
página. Era sobre Jorge.

Mal sabíamos, que este enredo estava apenas
começando.

De lá para cá, Jorge tornou-se parte essencial
do corpo de designers e reedições da ETEL, a marca.

Para nós, reeditar é uma questão de
princípio(s).

De começar e nunca terminar.

Tornando vivo o móvel, em uma linha do
tempo desfeita propositalmente.

Durar para sempre só depende da relação que
cada um construirá com sua peça.

São conexões físicas, emocionais e
atemporais.

Que se transformam em legados. Como
aconteceu com Jorge.

Justo ele, que brinca de adivinhar o desejo
alheio. E sempre acerta.

Aclamado perto e longe, Jorge não liga.

Faz o que gosta, para quem gosta, porque
gosta.

Seu tempo não é determinista, mas
determinado. Passo a passo, peça a peça.

Em 2006, as reedições autorizadas de suas obras,
produzidas nas décadas de 50 e 60, estavam no mercado.

Como a Dinamarquesa, criada em 1959, marco
na carreira. Ela representa uma etapa em que Jorge se deu o direito de criar
apenas por prazer, para ele mesmo, conforme diz.

O público atual insiste no contrário,
disputando a poltrona de jacarandá e estofada, com pés palito, cujo desenho dos
braços e dos pés frontais lembra as colunas do Niemeyer para o Palácio da
Alvorada.

E, assim, os móveis rapidamente se
transformam em objetos do desejo.

Em 2010, a surpresa. Jorge apresenta uma
peça inédita, a poltrona Veronica.

São meses na nossa fábrica, moldando cada
detalhe à mão.

Veronica é uma de suas filhas. Assim como
Marina. A família respira Jorge. Ou seria o contrário?

Ele então tinha 88 anos…

Muito tarde? Ou deveras cedo? Existe isso?
Existe?

Melhor nem perder um segundo tentando
decifrar o tempo.

De sheiks a recém-casados, lá está o extenso
público de fãs do Jorge. No Brasil e além. Muito além.

Já são 15 reedições. E vêm aí mais 10.

Uma produção extensa para um profissional
idem.

Doce e obstinado, Jorge é daqueles que
encanta e sabe ser encantado.

Corajoso, fará 90, com espírito de 19.

Ele se dedica… E se diverte.

Trata os móveis com respeito. Gosta de
senti-los, acariciá-los.

Conversa com eles e os ouve também.

Uma relação mágica, essa.

Sonhar, desenhar, fazer, rir, lançar,
relançar.

Diversos ciclos de um ser singular.

A poesia e a sensualidade estão em cada
reta, curva, braço e pé.

De execução cuidadosa, o mobiliário exibe
beleza, conforto e um quê inexplicável.

Coisas da alma, coisas do nosso designer.

Moderno é ser aceito, querido e admirado.

Como Jorge.

 

Etel Carmona

 

 

 

A Associação
de Decoração Ponto de Apoio convida para palestra e abertura da exposição:

Jerzy Zalszupin

Dia 22 de
março – Museu Oscar Niemeyer

19h00
palestra “O Design de Jorge Zalszupin e o L`Atelier” – Auditório Poty Lazzaroto